Apresentação

Cultivar a permanência do olhar

Cultivar a permanência do olhar nas fissuras do cotidiano – corpos e vidas – possibilita-nos a experiência de um tempo que escorre, e não apenas se precipita. Nessa dimensão de tempo escorredouro e dilatado – não-escorregadio – o espaço entre se configura: entre-imagem, entre-movimento, entre-lugar. O momento do tempo não administrado por completo pela lógica da mercadoria – o lugar dos possíveis. Onde o princípio esperança poderia muito bem morar.

Como diz Michel de Certeau, lugar é tudo o que se pode sonhar sobre o lugar. Mais: lugar é justamente o que poderia ser tão próximo, que nos faz estranhar o que é desumano e transcender, inventar, povoar o que nunca houve, mas que pode ser. O que de tão fronteiriço alcança os interespaços com uma lógica outra que nos ultrapassa, em nossa solidão. E – seria bom ousar dizer – simplesmente nos humaniza.

Em um processo de atualização ininterrupto, eis como o ato de dançar pode constituir-se num entre-lugar: como um regime de disponibilidade onde se coloca um corpo, independente de sua localização geográfica. Linha de fuga, que fizesse seu caminho de ida e, logo, voltasse, cumprindo seu avesso. Assim se pode dizer que dançar é tornar visível o que nos é familiar e, por isso mesmo, tornou-se invisível. Dançar é também desfamiliarizar – compor gesto e cena com corpos intensivos, potencializadores de encontros e afetos que nos vêm de um futuro nunca acontecido antes. Como diria o educador Paulo Freire: é função da arte criar o inédito viável – o que nunca se teve, mas que pode vir a ser.

A revista OLHARCE surge nesse contexto como uma das ações do projeto Bienal Internacional de Dança do Ceará/De Par Em Par, que nos anos pares, intervalares aos anos do Festival, investe em ações focadas em formação – artística e de público – centradas em três eixos: registro e memória; circulação; produção corpo-imagem.

O principal objetivo é dar visibilidade às ações que vêm sendo desenvolvidas na área da dança no Ceará, apostando em novos desdobramentos e conexões. Que os espaços, os artistas e os territórios aqui apresentados sejam do mundo, deslocando-se das limitações geográficas, habitando a terceira margem. Ou o outro lado que a imagem aponta: o que não se pode tocar, mas se adivinha.

Aqui estão relações que estabelecemos ao longo do período de dez anos. Movimento e pausa. É a isso que a Bienal Internacional de Dança se propõe: evidenciar relações – mais do que produtos, objetos, obras – e deixar ver a complexidade de nosso próprio tempo, em seus embates culturais, sociais, econômicos. Em seu discurso amoroso. Mover-se no nosso tempo, nos espaços do cotidiano que se pode ver que se move: voar entre eles. E trazer o devir para tão perto, que se pode encantar o hoje com o terceiro minuto da aurora.

No dorso desse cavalgar, o imaginado é tomado como uma estação. Onde as relações aqui vividas, através de uma produção artística diversa e, a um só tempo, próxima, possa provocar, ainda e sempre, não apenas o sonho, mas o exercício de sonhar.

David Linhares e Andréa Bardawil